terça-feira, 31 de julho de 2012

IGUAIS DIFERENTES

Aconteceu ao levar um amigo para casa. Ao estacionar o carro, mesmo antes que descesse para me despedir, fui abordado por uma moça ainda jovem, bastante judiada na aparência e no asseio. Dizia que precisava completar o dinheiro para comprar um remédio para sua filhinha. 
Sem analisar se a estória de sua necessidade era ou não verdadeira peguei, continente, no console do carro onde sempre deixo algumas moedas, duas delas, sem mesmo ver o seu valor. A garota, ao estender as mãos, exibiu vários pontos de queimaduras em seus dedos, claramente sugerindo que era viciada, possivelmente em ‘crack’. 
Para minha surpresa e de meu amigo que, ao lado, observava toda cena, a garota esboçou um irreverente sorriso e, devolvendo-me as moedas com rara petulância, proferiu rudemente que ‘aquela quantia não lhe interessava e que as desse para outro idiota’, não para ela. Feito isso, deu de ombros e virou-me as costas, embrenhando-se por outra rua. Ficamos ali perplexos, por alguns instantes! 
Logo após esse inóspito episódio, estacionei o carro em outra rua para comprar os pães para o lanche da tarde. Ali é comum a presença de garotos que se oferecem para ‘olhar o carro’. 
Ao retornar da compra, como que numa reprise da cena que acontecera há apenas alguns instantes, novamente fui abordado por um deles que pedia ‘algum dinheiro’. Igualmente, era judiado na aparência e no asseio. 
Agora, propositada e conscientemente, peguei aquelas mesmas duas moedas rejeitadas pela moça e entreguei-as ao rapazote. Para minha surpresa ouvi de sua boca, esboçando um feliz sorriso, “obrigado, que Deus o abençoe”. 
Dois fatos isolados, mas parecidos. Pessoas da mesma classe social, excluídos e, de certa forma, carentes de um olhar, de uma ajuda. 
Apesar de iguais em sua essência e no seu aparente perfil são, entretanto, totalmente diferentes no grau e na maneira de aceitarem e conviverem com suas misérias e dificuldades. Ele pede pela necessidade de nutrir-se, ela para ‘alimentar’ o vício. 
Quilômetros de diferenças interiores separam as duas personagens, em especial, na espiritualidade, na forma de reconhecer tudo aquilo que Deus lhes concede a mais ou a menos. Um bendiz, enquanto o outro amaldiçoa. 
Assim, de posições sociais diferentes, mas semelhantes a esses dois jovens, quantos deixam de receber tantas bênçãos e dádivas que imploram ao Céu, por esperá-las apenas em grandes proporções, deixando de reconhecer e acolher, aquelas que são concedidas na forma de pequenas manifestações em suas vidas, tal como é o próprio dom do 'simplesmente viver'. 
Abrem mão de tantas pequenas alegrias verdadeiras, em troca de buscar e viver apenas atrás de grandes realizações, prazeres e resultados. 
A intensidade do viver, a alegria e paz em plenitude não dependem do grau ou posição social e cultural, e sim do grau de aceitação, sensibilidade e espiritualidade de cada um. 
Em verdade, ‘o sol nasce para brilhar sobre os bons e os maus’, comprovando que todos são iguais para os dons e graças da Vida, bastando a cada um optar por viver na luz ou nas sombras. 
Um viverá, o outro certamente perecerá! 
J. Rubens Alves

sábado, 14 de julho de 2012

VALE SONHAR

Quantos manifestam desesperança com relação ao futuro! Essa postura de desilusão se manifesta com o inconformismo em relação aos atos de violência, selvagerias e injustiças que se espalham ao redor do mundo.
Não faz bem para ninguém, entretanto, ficar somente lamentando o mal que aí existe e sempre existiu, pois isso só serviria para alimentar o lado negativo. Nem o mundo se beneficiaria com posturas de desalento.
Ao contrário, cada um deve revestir-se de boas energias e alimentar esperanças.
Vale sonhar sobre as possibilidades de transformar o mundo. Se não em sua totalidade, que seria impossível, ao menos cada um ao redor de si mesmo.
Não se operam milagres sem atitudes, sem mudança de comportamento e de cultura. E tudo isso acontece através da educação a partir da família, da escola e das instituições.
Somente mudando-se a maneira de enxergar o mundo e utilizando-se com inteligência o que ele oferece de possibilidades é que se consolidarão as melhorias sonhadas.
Isso não ocorrerá se essas mudanças não acontecerem antes em cada um, modificando a partir de si a maneira de ver e interpretar o que ocorre em sua volta, se conscientizando em primeiro lugar, do seu verdadeiro papel neste mundo.
Dessa forma, o sonho de transformação se realizará em plenitude.
Não há sentido cada qual passar a vida inteira buscando apenas se resguardar e indicando que há algo errado. É preciso mudar algo a partir de si.
É preciso definitivamente lançar um olhar com horizonte mais amplo e, a partir de então, tomar uma atitude positiva que gere frutos de solidariedade, de partilha e amor.
J. Rubens Alves