sábado, 15 de agosto de 2009

PAI E MÃE, DOM PARA OS FILHOS



Testemunho: Maristela e Marcio - RS

Bom dia queridos irmãos! Estamos aqui com o propósito de contar-lhes um pouco sobre as nossas vidas. Vida que se agitou muito com o chamado para estarmos aqui hoje, pois é necessário abrir nossos corações e refletir sobre algo que conscientemente não mexemos todos os dias. Então vamos lá. Somos Maristela e Marcio, pais das meninas Laura, com 9 anos e Antônia, com 3 anos.
A primeira vez que nos vimos, e não trocamos nenhuma palavra, foi na Paróquia Cristo Redentor, em Porto Alegre. Nos reencontramos e nos conhecemos na fila de matrícula da faculdade para realizar o mesmo curso, impressionante, parece coincidência, mas não é. Construímos uma amizade que dois anos mais tarde tornou-se namoro. Estamos casados há 14 anos e pertencemos as Equipes de Nossa Senhora há quase o mesmo tempo, pois casamos em julho de 1995 e nossa pilotagem, com a Graça de Deus, começou em setembro do mesmo ano. Hoje somos integrantes da Equipe Nossa Senhora Medianeira de todas as Graças, Setor E, Porto Alegre, Região Rio Grande do Sul I.
É muito bom recordar... mas, vamos ao tema proposto para nosso testemunho e que partilharemos com vocês: PAI E MÃE, DOM PARA OS FILHOS.
Nesse tempo de casados procuramos construir nossa vida com base nos fundamentos cristãos, o que não é tão fácil assim, afinal, somos humanos. Ao mesmo tempo, sabemos que não é impossível, ainda mais quando nos entregamos à vontade do Pai e podemos contar com meios que nos ajudam e facilitam a espiritualidade conjugal, como propõe o Movimento das ENS.
Quanto ao início da nossa caminhada, refletimos sobre os desafios enfrentados para constituir uma família, ou melhor, tornar-se uma família com as exigências dos dias de hoje, sem esquecer que estamos inseridos num contexto de um país com instabilidades, injustiça social e severas desigualdades. Tivemos de associar estudo e trabalho – uma rotina desde o início do nosso casamento. O tempo sempre escasso e o convívio limitado. Como muitos casais sabem, as dificuldades são de toda ordem, mas, no meio de tudo isso, sempre houve uma clara intenção de não abrir mão da dimensão espiritual.
Na busca das condições básicas que elegemos, assumimos determinados comportamentos ou idéias. Nos envolvemos com mais trabalho, compromissos, estresses de notícias próximas e distantes, que nos afetam pela facilidade e rapidez com que circulam informações. Tudo isso tem um preço no nosso dia-dia. Como conseqüência: ficamos mais suscetíveis as discussões e desarmonias, terreno fértil para um convívio conjugal e familiar comprometido.
Então, nesse contexto de vida, nos sentimos cada vez mais encurralados. Preocupados com tantas prioridades, as quais, muitas vezes, não são exatamente as nossas prioridades essenciais.
Tão atrapalhados, chegamos a pensar no “momento ideal” para ter filhos. Quando e como tornar-se família. Mas... pensando bem, quando isso acontece não estamos esquecendo que somos “criaturas” e não “criadores”?
Com essas motivações, pautamos nosso testemunho por algumas reflexões, tal como segue.
Nossa primeira reflexão é que a vida nos impõe abandonos!
O Evangelista João (12,24) nos ensina que é preciso que o grão morra para torna-se fruto. Dessa forma, reconhecemos que foram muitas as vezes em que nos abandonamos na esperança e na certeza de um dia melhor em nossas vidas.
A começar pela decisão de nos unir em matrimônio. Foi nosso primeiro abandono – o da casa dos nossos pais. Trocamos o conforto da vida de filhos para as responsabilidades de formarmos nossa própria família. Tomamos essa decisão pela expectativa de felicidade na construção de uma vida nova a dois!
Logo em seguida, começamos a pensar na chegada dos filhos. Nesse momento, vivemos um novo abandono: o da comodidade da vida a dois. Sabíamos que a partir da chegada de um filho, nada mais seria como antes, então, nos entregamos a essa partilha de vida que só termina quando chamados de volta à casa do Pai Celeste.
Como a maioria dos casais, acreditávamos que a paternidade biológica seria um acontecimento natural e, de certa forma, planejada. Engano nosso! Tivemos de pensar na paternidade pela adoção, o que nos exigiu ainda outro abandono: do projeto biológico da paternidade. Indiscutivelmente, mereceu uma entrega a Deus, nosso Criador, fonte de vida nova!
Ao mesmo tempo, percebemos que fosse filho biológico ou do coração, por sua natureza humana sofreria o abandono do seio de quem fisicamente o gerou. Afinal, o filho recém-nascido também abandona-se na providência divina, com a esperança de uma vida nova junto à família que Deus lhe concedeu!
O Frei Cantalamessa, no VI Encontro Mundial das Famílias, ocorrido em janeiro deste ano na Cidade do México, nos relembra que a família é um projeto de Deus onde “matrimônio e família são ideais a se descobrir e viver em plenitude, constituindo uma poderosa forma de evangelização para toda sociedade”.
A segunda reflexão que fazemos é que a vida é dinâmica.
A vida nos revela fatos novos, inesperados, de tempo em tempo. Mas, por que isso acontece? Por certo, esses momentos existem porque Deus quer que possamos amadurecer nossos pensamentos e atitudes diante da vida. Percebemos que quando isso nos acontece, são momentos evidentes de conversão, pois nos exigem mudanças de atitude e tomadas de decisão – acima de tudo, uma oportunidade de reencontro com o que é essencial, com o que está no plano de Deus, com a pequenez da condição de “criatura” que somos.
Queremos partilhar com vocês o que aconteceu de inesperado conosco nos primeiros anos de casados. O tempo começou a passar, passar... e nada de engravidarmos. Então, começamos a realizar algumas consultas, exames, algumas frustrações, mais exames e o diagnóstico de infertilidade primária.
É, a vida é dinâmica, mesmo. De uma hora para outra, tudo muda. O que fazer com essa notícia? Não nos sentimos amedrontados, em pânico ou sem esperança. Talvez, naquele momento, perguntávamos apenas o porquê disso acontecer conosco, mas, a resposta já vinha como num sopro em nossos ouvidos.
Bastaram alguns dias, após os resultados que traziam a impossibilidade de gravidez e recebo um telefonema da Maristela, que estava em seu trabalho, na UTI-neonatal de um hospital. “Sabe quem está no meu colo?” Disse-me ela. Maristela estava com uma menina chamada Michele. Contou-me que se tratava de um bebê que estava ali aguardando ser encaminhada a uma casa de passagem – uma espécie de orfanato, onde bebês esperam pelos trâmites legais e por seus pais adotivos.
Naquele instante a Graça de Deus se fez presente em nossas vidas e descobrimos, a partir daquele momento, que seríamos pais. Nos sentimos verdadeiramente grávidos. Nossos corações transbordavam de felicidade na alegria de realizarmos o projeto de família, ser pai e mãe. Afinal, nos casamos para sermos felizes e cremos nas palavras de São Paulo aos Romanos (8, 28): “...tudo concorre para o bem daqueles que amam o Senhor...”.
Se esse é o caminho para um casamento fecundo, que seja feita a sua vontade!
Na realidade, não nos movimentamos para adotar a pequena Michele. Ela apenas foi instrumento de Deus para apascentar nossos corações e dar um passo importante no início da caminhada para a adoção!
Então, percebemos que gerar vida era, antes de mais nada, um estado de espírito.
O que fizemos naquele momento foi dar nosso “sim”.
Um “sim” que liberta.
Nos libertou da dimensão onipotente de “criadores de vida”, da sensação de autônomos no mundo, para nos reconhecermos como dependentes de Deus.
O que fizemos foi dar nosso “sim” ao plano de Deus.
Nesse processo, renovamos também o “sim” como esposos. Confirmamos os votos de estarmos juntos na alegria e na tristeza e de receber os filhos que Deus confiasse ao nosso cuidado.
Aceitamos ser pais adotivos e, da mesma forma que acontece com pais biológicos, receber a missão e o compromisso de fazer crescer uma vida nova, por todos desconhecida. A partir desse momento nos sentíamos grávidos no coração, na alma, todo nosso ser.
Depois disso, nos encaminhando para uma nova reflexão, percebemos que quem quer realmente ser pai e mãe, quer apenas uma coisa: quer amar!
E amar é um dom!
O dom de ser instrumento de Deus. Por quê? Porque Deus é amor.
Então, evidentemente, nos damos conta de que não somos nós que amamos, mas Deus é quem ama através de cada um de nós! Nesse dia entendemos nossa terceira reflexão: o amor gera vida!
No evangelho escrito por São Mateus, Jesus disse que “o que fizerdes a uma dessas criancinhas, a mim estarás fazendo”.
Bom, num primeiro momento, pode-se pensar no bem que estamos fazendo a ela, na benevolência, na caridade, no desprendimento. Nada disso.
Se o que ocorre verdadeiramente dentro de nós é gerar vida nova na perspectiva de que Deus é amor, então, é essa criança que estará nos fazendo o bem. É ela que nos fará caridade, nos permitirá amar e vai nos transformar com o amor de Deus que ela infundirá em cada um de nós!
Foi nesse espírito que recebemos a notícia de que nossa filha Laura estava nos esperando, numa pequena cidade de imigração italiana do interior do RS. A recebemos em nossos braços como o mais lindo presente, que aqueceu a vida de todos, pais, tios, avós, bisavós, amigos e irmãos em Cristo, naquele inverno sulino de 1999. Era 30 de agosto, ao chegarmos no hospital, ainda sem descer do carro, a Assistente Social me diz: “Marcio vem ver tua filha, ela é a tua cara!”. Dessa forma fomos acolhidos pela pequena Laurita.
Lembramos de Efésios (1,3-5), onde está escrito que Deus também nos adotou como filhos. Assim, nos tornamos dons uns para os outros – misteriosamente, sem herança biológica: imagem e semelhança do Deus-Pai que nos adota.
Para todos nós, pais e mães, essa entrega é absolutamente necessária! E bem apontada pelas palavras do Pe Cafarel em seu livro Amor e Graça, onde ele nos diz: “Só a vida é criadora de vida” e, portanto, “Só se dá a vida, dando a sua própria vida!”.
Era uma maternidade e paternidade tão convicta que decidimos amamentar a Laura. Colocando-a no peito, com persistência, aguardamos que o corpo reagisse e o leite descesse. Até que no dia de Nossa Senhora Aparecida, instantes após receber o sacramento do batismo, Laura recebeu um pequeno mimo de Deus: o leite materno. Então, concretizou-se aquilo que acreditávamos sem nunca ter visto, apenas ouvido falar – como o leite que mana da Terra Prometida descrita no Livro de Ezequiel (20, 6).
Há ainda espaço para surpresas? Sem dúvida.
Em maio de 2005, Laura próxima dos seus 6 anos de idade, algo de novo passa a nos movimentar. Maristela estava grávida. Era fato inesperado, mas muito bem-vindo. Acima de tudo, por acreditarmos que essa benção veio pela presença de Laura em nossas vidas. Pois, em nossos braços, ela Laura nos fez pai e mãe. Nos tornou fecundos. Naquele momento, mostrou-nos que “tudo é possível naquele que nos fortalece” (Fl 4,13), quando menos esperávamos.
Então o Salmo 129 serviu-nos de reflexão: “Senhor, Tu me sondas e me conheces; Tu conheces o meu sentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento”. Nosso querido Pai sabia que queríamos aumentar a família e tomou a decisão por nós, não deixou o tempo passar, nem que acreditássemos em nossa independência no universo.
Naquele mesmo ano, entre o Natal e o Ano Novo, nasceu Antônia. Hoje uma espoletinha de 3 anos que salta e pula que nem pipoca; nos tonteia com seus “porquês”; imita e segue os passos de sua mana Laura.
Quanto aos filhos, um pensamento sempre nos norteou: serão erros e acertos na educação e o ponto de referência é a coerência!
Frei Cantalamessa refere a imagem plural do casal, o “nós”, que aos filhos deve se reproduzir em “eu e tua mãe, “teu pai e eu”.
Os pais são os primeiros catequistas – nossa quarta reflexão. João Paulo II afirmou que “a família foi criada por Deus para ser uma escola de amor”. Nisso nos baseamos, cientes de nossos defeitos e virtudes. Temos convicção de que a família será o espaço de sedimentação de valores, onde também deve acontecer a divergência e a convergência; o perdão e a reconciliação; o exercício de sermos melhores mesmo carregando uma bagagem de qualidades positivas e negativas, que às vezes aproximam, outras afastam. Somos assim, seres humanos, limitados, que devem seguir o caminho indicado por Jesus Cristo para alcançar a virtude e a salvação!
Então, ser pai e mãe, para nós, é buscar em casal a vida de fé, de união e amor. Esse testemunho, entrelaçado na educação dos filhos, é que se faz dom! Essa herança é que nos torna dons para os filhos, muito mais do que a genética ou um testamento recheado de bens materiais.
Deixaremos vocês, agora, com algumas imagens que ilustram essa caminhada... que resgatam momentos de nossa vida... nada diferente da vida de vocês... imagens que desenham alegrias e tristezas, realizações e frustrações... mas que, com a graça de Deus, se permitem ilustrar a vida de pais que querem, desejam, ser dons para os filhos!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

CASAIS, IDE E EVANGELIZAI


Queridos e amados casais das ENS de todo Brasil! Minha saudação aos que aqui se encontram fisicamente e aos presentes no coração de cada um de nós. Nenhum casal equipista do Brasil está oculto aos nossos olhos neste momento solene da vida do Movimento das ENS. Ninguém se sinta ausente porque em cada um dos presentes estão todos os que não puderam fazer-se presentes. Onde está nosso tesouro aí está nosso coração.
Que belos momentos de convivência, passados juntos nestes dias! Dizemos belos momentos, pois, tudo parece pouco quando o amor é grande. Curto parece o tempo, breves as horas, diante de tudo o que vimos e ouvimos. A felicidade experimentada é tão grande que gostaríamos tornar eternos cada um destes momentos. O clima familiar, a certeza da presença de Jesus Cristo, a experiência de sentir que somos uma família onde todos se amam, torna cada ato aqui vivido, um momento de Céu antecipado.
Mas, na terra tudo é passageiro. Está chegando o momento de despedir-se e voltar cada um para sua casa e sua terra. Quando Pedro, no glorioso dia da Transfiguração, disse a Jesus: “É bom estarmos aqui...”, era chegada a hora de descer da montanha e voltar para o dia a dia da vida.
Quando Jesus estava se preparando para a grande despedida, em seu excesso de amor, não sabendo mais o que dizer e o que dar, ainda encontrou no fundo do seu coração um presente, talvez o maior, a Eucaristia, onde não só estava dando alguma coisa, mas dando-se a si mesmo. Encontrou a forma de estar sempre vivo e ressuscitado no meio do povo.
Vamos partir daqui com o propósito de fazer da nossa vida, “uma eucaristia”, colocando-nos ao serviço da Igreja, no Movimento das ENS. Servir é a forma de permanecer ao lado de todos, pois, formamos um só corpo. Servir é a forma humana de amar.
“Nada acontece por acaso!” Tudo está previsto, tudo está nos esquemas e planos de Deus. As passagens bíblicas deste Domingo parecem escolhidas para esse momento, mas foram presenteadas pelas mãos generosas de Deus, que sempre servem o melhor para seus filhos. Deus sabe das necessidades do mundo de hoje. Deus, “Pai e Mãe”, sabe o que é bom e útil, neste momento que há de marcar a caminhada das ENS no Brasil.
Meus queridos casais! Encontramo-nos diante de uma página evangélica falando da experiência missionária dos Apóstolos. Os discípulos, em sua primeira experiência apostólica como enviados do Mestre, comprovaram o poder e a força da Palavra de Jesus. Voltaram felizes, ao convívio do Mestre, por tudo o que puderam experimentar em seu íntimo e por tudo o que puderam perceber naqueles que os acolheram. A experiência do servir deixa uma marca que nem o tempo e nem a eternidade podem apagar. As palavras rascunham, mas não descrevem uma experiência. A alegria do servir é uma riqueza que pode ser percebida pelos outros, mas não pode ser dada.
Os Apóstolos constataram, que, quando o assunto é Jesus Cristo, Pessoa e Mensagem, o povo acorre em massa para escutar, como um rebanho sedento, buscando água para matar a sede. A pregação dos Apóstolos, apaixonados por Jesus e cheios de um ardoroso zelo pela sua mensagem, fez com que a busca de Jesus crescesse sempre mais. Eram sempre mais numerosos os que procuravam encontrar-se com Jesus.
O contexto desta passagem do Evangelho, fala do martírio de João Batista; e os versículos seguintes, do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes.
O sangue derramado por João Batista foi semente que rendeu mais de cem por um. A multiplicação dos pães e peixes é um símbolo da fecundidade da palavra de Deus e da abundância dos frutos da semente que soube morrer. Soube morrer João Batista, entregando a cabeça e soube morrer o menino, entregando os cinco pães e os dois peixes.
Estes homens foram escolhidos e chamados, um por um, para estar junto de Jesus. O chamado encerra uma missão. Jesus sabe que o seu plano se há de concretizar sempre e somente através dos seus escolhidos, chamados e enviados. Ao chamar, Jesus não disse para quê chama, mas disse simplesmente, olhando para cada um: “Segue-me” (Mt 9,9). Mestre, onde moras, disse um dos convidados? Jesus não entregou um cartão e nem pegou a caneta para escrever seu endereço, mas simplesmente respondeu: “Vinde e vede” (Jo 1, 39).
O convite foi para que fossem morar com Ele e vissem com os próprios olhos, quem era, o que fazia e como vivia. Eles deixaram tudo e o seguiram.
O passo primeiro e decisivo para ser discípulo, é estar ao lado do Mestre para escutá-Lo. Primeiro nos tornamos discípulos e depois Apóstolos missionários. É por este caminho que nos quer levar o P. Caffarel. A bagagem do missionário é Jesus Cristo, guardado no cofre do coração e da mente; a cartilha dos conteúdos da pregação é a Palavra de Jesus, não escrita em papel, mas no coração que escuta diretamente dos lábios de Jesus nos momentos de convivência íntima e familiar. A mensagem do missionário de Jesus não é preparada diante do computador, nem diante de livros ou da internet, mas é preparada na escuta amorosa de Jesus. O coração e a mente se abrem para acolher o amor de Deus que se derrama, quando silenciosamente nos prostramos diante dele.
Assim procedia Jesus diante do Pai. Passava longas horas, noites inteiras em diálogo como Pai. “Meu alimento é fazer a vontade do Pai”. Como descobrir a vontade do Pai se não nos colocamos à sua escuta, silenciosamente? Jesus subia ao monte para orar, levantava-se bem cedo e retirava-se num lugar solitário e deserto, para estar a sós com o Pai. Na Bíblia, subir à montanha significa colocar-se mais perto, aos pés de Deus.
Quando Deus queria encontrar-se com Moisés para mostrar-lhe a vontade do Pai, levava-o ao alto da montanha. De lá Moisés voltava trazendo a mensagem da vontade de Deus para o seu povo.
A consciência de ser chamado por Deus é um dos passos mais importantes para tornar-se discípulo. Por que Jesus chama? Será para dar uma tarefa que deve ser cumprida com urgência? Certamente não é esta a finalidade primeira do chamado. Deus chama primeiro para que fiquemos com Ele, para que nos tornemos seus amigos, para fazer-nos sentir que somos amados e para dizer a Ele que o amamos, até podermos dizer com Pedro: “Senhor, Tu sabes que eu Te amo”. O convívio permite que haja uma abertura do coração de ambos os lados. Este é o primeiro e definitivo passo para tornar-se discípulo.
O grave erro que cometemos muitas vezes é ver no chamado uma ordem para executar tarefas, ainda que santas. A execução de tarefas, a missão, vem depois, bem depois e sua eficácia depende da primeira parte do chamado (ser discípulo).
Deus, certamente quis e quer precisar da colaboração humana, da ação dos casais. Mas, mais do que da tua ação, Ele quer o teu coração. Eu sou o importante para Ele e não a minha ação, pois esta é dele, mais do que minha. “Sem mim nada podeis fazer”. “Pela graça de Deus sou o que sou/.../Trabalhei mais do que todos eles; não eu, mas a graça de Deus que está comigo” (1 Cor 15, 10).
Seguindo a trilha do Evangelho de hoje queremos entender e precisamos nos convencer, que Jesus chama, não em atenção às nossas qualidades, pois não precisa delas, mas, para que sejamos discípulos; para que tenhamos a coragem e a determinação de ir e ver onde mora, a coragem e a determinação de sempre, como discípulos, permanecer aos seus pés.
Se os passos do discipulado não forem preenchidos, poderemos até partir em missão, mas, muito brevemente começaremos sentir o cansaço e o peso dos fracassos levar-nos-á ao abandono da missão. A desilusão do servir oriunda de fracassos tem sua explicação: querer ser missionário sem ser discípulo. Dizia Teresa de Jesus: “Quem ama não se cansa e nem cansa”.
O discípulo que conhece o mestre é enviado para revelar primeiro a pessoa e depois sua mensagem de amor. A intimidade com Jesus se aprofunda com o conhecimento; e o conhecimento depende do convívio em que prevalece a dinâmica da escuta e interiorização da palavra. Não é esta a mensagem do Pe, Caffarel com o tema da “oração interior” para fazer de cada Equipe uma Escola de Apóstolos?
Jesus chamou os discípulos para junto de si e depois os enviou com uma missão bem definida:
* Curar os doentes,
* Expulsar os demônios, e
* Anunciar que o Reino de Deus está próximo.
O casal cristão feito discípulo pela Escola de Jesus é enviado, nãos para fazer milagres, mas para curar os enfermos e oferecer o remédio: Jesus Cristo.
O matrimônio é fonte de graça, de vida e de amor. O sacramento do matrimônio é uma fonte pura porque nasce do mesmo Deus. "Deus é amor". O amor do casal contamina-se, quando se afasta da nascente. Portanto, é missão do casal cristão curar o matrimônio que se afastou da fonte do amor.
Que diremos aos casais doentes no amor? Caríssimos casais das ENS! Ofereçam o testemunho de vida matrimonial evangelicamente vivida. Sejam vocês o Evangelho vivo! Para isto nasceram as ENS: Para mostrar que o evangelho também se vive na vida matrimonial. Casal doente no amor é alérgico ao remédio das palavras, mas não é alérgico ao remédio do testemunho.
Mostrar que a trilha do Evangelho é caminho de vida feliz para os casados. Casais das ENS, tornai-vos um evangelho ambulante, uma voz profética corajosa nos areópagos onde o evangelho do matrimônio é contestado, não negando o Evangelho, mas criando um evangelho paralelo próprio. A vossa vida feliz, por ser o que sois, por acreditar e viver a mensagem evangélica, será uma força que há de arrastar multidões. No Evangelho está a força e o poder de Deus (cf Rm 1, 16). O testemunho de tantos casais é a prova. Vós, casais, consagrados pelo “grande sacramento” do amor, semelhante ao de Cristo para com sua Igreja, tornai-vos para os outros, sinais visíveis e eficazes, verdadeiros sacramentos.
Vossa vida, vivida evangelicamente, é um sinal da presença desta graça, um sinal eficaz para tantos que buscam a felicidade experimentada por vocês. Falem com a convicção e com a unção que nasce da força misteriosa do Evangelho feito vida.
Falar de um amor matrimonial que não brota de uma experiência é como escrever no ar em noite escura. A força da palavra está oculta, mas não passiva, na vida de cada um de vocês. O testemunho de uma vida feliz é um remédio infalível e sempre eficaz.
A segunda missão confiada por Jesus: expulsar demônios. No tempo de Jesus havia muitos possessos. Há, hoje, muitos possessos do demônio de verdades distorcidas, semeadas pela mídia comandada pelos falsos profetas, possuídos de falsas idéias sobre o matrimônio, idéias que não tem sua raiz no Evangelho de Jesus Cristo. “Eu sou a Verdade”, disse Jesus; os demônios das falsas idéias sobre a Igreja, seu Corpo Místico, sobre sua doutrina e autoridade.
O casal cristão tem o remédio, mais ainda, o casal cristão é o remédio. Sua simples presença pode expulsar estes demônios disfarçadamente apresentados no palco do mundo. A vida é o melhor argumento, mas nem por isso podemos calar. O calar-se também é um demônio que precisa ser expulso. São do Apóstolo Paula as palavras: “Não temas/.../, continua a falar, não te cales” (At 18,9).
Em terceiro lugar Jesus os enviou para que pregassem que o Reino de Deus está próximo. Este lembrete é um convite à conversão que não pode ser adiada.
O II Encontro Nacional das ENS nos envia a proclamar que o Reino de Deus está próximo. Esta proclamação se faz pela conversão.
João Batista foi enviado para endireitar caminhos e aplainar vales. Em outras palavras, diríamos, para abrir corações. “Abri as portas para Cristo” dizia João Paulo II para que possamos entrar no novo milênio com algum sinal de esperança. O Cristo está aí, às portas, chamando e esperando por mim e por ti.
Não será este II Encontro Nacional um solene badalar dos sinos, chamando para que lhe seja aberta a porta do coração, e assim poder entrar e estar conosco? Quantos matrimônios de portas fechadas para Cristo! È o Senhor da vida batendo a porta, pedindo licença para entrar! Eu sou o Caminho, disse Jesus. “Ninguém chega ao Pai senão por mim”. Converter-se é abrir o coração para que entre Aquele que se fez nosso Caminho.
Quando Pedro terminou o discurso no dia de Pentecostes, muitos, tocados pelas suas palavras, perguntaram: Irmãos, que devemos fazer? (At 2, 37).
Aquele povo entendeu e acolheu a mensagem, colocando-se à disposição para fazer tudo o que eles ensinaram. As palavras tocam quando brotam de um coração movido e transformado pela força do Espírito Santo.
Coração tocado por Deus é coração a caminho da conversão. Casais das ENS, vós sois enviados àqueles que abraçaram a mesma vocação de vocês, mas ainda não experimentaram o sabor do Evangelho, àqueles que ainda não se encontraram com o Senhor. Vós sois chamados a abrir caminhos por onde passardes deixando o rastro da vossa vida.
Jesus se comoveu vendo aquela multidão vinda de todos os lados em busca de Jesus. Certamente ouviram falar dele e a notícia ouvida despertou interesse. Para quem está no escuro, basta qualquer raio de luz para fazer nascer a esperança. A fome de Deus é mais devoradora que a fome de pão. Essa fome faz correr para qualquer lugar onde se vislumbra um sinal de sua presença. Sem saber há uma busca de Deus.
Jesus, com sua sensibilidade humana, convida os discípulos que voltam da breve experiência apostólica, a se retirarem com Ele para descansar e ficar um pouco a sós com eles. Mas as multidões não deixam em paz nem Jesus e nem os Apóstolos. Quando a sede de verdade aperta o coração busca-se incansavelmente e bebe-se qualquer coisa que aparece. Vendo este povo faminto do pão da verdade, Jesus exclamou: Parecem ovelhas sem pastor!
Queridos casais! Vocês são procurados com a mesma ânsia, com a mesma fome espiritual, com a mesma sede daqueles que procuravam Jesus e seus discípulos. Há muitos casais que vos querem conhecer, ouvir e ver. Buscaram o matrimônio para saciar a fome de felicidade, mas não encontraram o que procuravam. Estes precisam escutar de vocês, e, sobretudo, ver em vocês onde encontrar o que buscam com tanto esforço e sem êxito.
Vocês são os enviados, os portadores desta luz. O rebanho sem pastor é cada dia maior. “O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia, o que vos é dito aos ouvidos, proclamai-o sobre os telhados” (Mt 10, 26). Precisamos mostrar o rosto feliz porque é esta a identidade cristã. A lâmpada é para estar no candelabro e brilhar.
Há muitos casais prostrados pelas estradas do mundo porque não há quem lhe ofereça um pedaço de pão da alegria de ser casal cristão.
A fome de vidas exemplares deixa muitos casais prostrados à beira do caminho. Domina a escuridão porque faltam casais convertidos e convencidos. É preciso ser convertido para sentir compaixão da multidão.
Hoje, a Igreja vem prostrar-se diante de vocês, queridos casais das ENS. Que Deus dê entranhas de misericórdia e compaixão e realize o milagre, não mais multiplicando pães e peixes, mas o milagre da multiplicação das ENS verdadeiramente dignas deste nome, fiéis ao ideal inspirado por Deus e concebido pelo Pe Caffarel. Que os casais que desfilam diante de vocês sintam vontade de conhecer o segredo de ser feliz!
Quando os Apóstolos disseram a Jesus: “Está aqui um menino que tem cinco pães e dois peixes, mas o que é isto para tanta gente? Mande a multidão para suas casas”, Jesus disse, “Dai-lhes vós mesmos de comer”.
O Brasil é grande, a população é numerosa. Somos nós os cinco pães e os dois peixes que nas mãos do Senhor se multiplicam para a todos saciar. Não deixemos de dizer ao Senhor: Senhor, temos cinco pães e dois peixes somente, mas entregamos esta insignificância e a colocamos ao vosso dispor. Ofereça os cinco pães da sua disponibilidade e do seu sim generoso no ordinário da vida. Não esconda os cinco pães das tuas aparentes fraquezas, do teu pouco tempo, das tuas poucas qualidades, da tua pouca cultura e saber. Para Deus, o teu pouco é o único necessário para o grande milagre. Teu pouco é o começo do milagre. Não negue este pouco! Quem criou o mundo, com tudo o que nele existe, do nada, muito mais fará com o pouco que nós colocamos em suas mãos. Aliás, o que oferecemos tem o tamanho, a grandeza e o valor daquele a quem oferecemos. O que damos e fazemos para Deus é de valor infinito como Deus é infinito.
“Casal cristão, ide e evangelizai”. Sede a alegria de Jesus e não a decepção. Cada Equipe seja um Colégio Apostólico, convidado, acima de tudo, para estar com Jesus, mas também destinado para ir, porque há muitas ovelhas que ainda não pertencem ao rebanho do Senhor. É preciso conduzi-las, estas também, para que haja um só rebanho ao redor de um só pastor. Voltem às suas Províncias, Regiões, Setores e Equipes e partilhem o que sentiram e viram neste Encontro. Aceitem o convite de passar um tempo com Jesus, estejam atentos a este convite que Ele vos fará freqüentemente, ainda que os que buscam a felicidade no matrimônio vos procurem e nãos vos deixem em paz.
Ide, evangelizai.
Acolhamos com fé e coragem este pedido do Senhor, neste momento solene.
Nós podemos tornar real o sonho do Senhor: Um só Rebanho. Ele confia em nós. Confiemos nós também nele. Nivelemos as duas confianças, a de Deus para conosco e a nossa para com Deus, e a missão terá o êxito desta confiança. Voltaremos cada dia muito felizes partilhando com todos a alegria de servir, partilhando os milagres que vimos acontecer quando nos colocamos como instrumentos conscientes e responsáveis em suas mãos. A confiança que Ele tem em nós se transforme compromisso acolhido com alegria.
Coragem, queridos casais, Ele vai conosco! Esta é uma promessa Deus. E Deus é fiel. Sejamos testemunhas desta fidelidade para que os casais do Brasil possam testemunhar: Cremos que este é o caminho porque vimos com nossos olhos.
Pe Avelino.

domingo, 14 de junho de 2009

A VERDADEIRA SORTE

Nestes dias de angústia, sofrimentos por crises de toda sorte, que na verdade não são marolas para quem trabalha duro para sobreviver, somente vale esta frase muito usada, mas novinha em folha:
Um pouco mais de trabalho, um pouco mais de audácia, um pouco mais de persistência, um pouco mais de entusiasmo, um pouco mais de decisão... É isto que podemos chamar de SORTE!

domingo, 7 de junho de 2009

FELICIDADE REALISTA



Este texto é de Mário Quintana:
"A princípio bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos. Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar a luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Ter um parceiro constante pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio. Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade. Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar É importante pensar-se ao extremo, buscar lá d entro o que nos mobiliza, instiga e conduz, mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade."

terça-feira, 2 de junho de 2009

XÔ! LOUCURA DOIDA

De louco todo mundo tem um pouco. Este velho provérbio até fazia sentido pouco tempo atrás. Do jeito que as coisas andam, por ora será melhor dizer que ‘de louco quase todo mundo tem muito’.
O ritmo desenfreado para cumprir obrigações diárias está levando grande número de pessoas agir como loucas. É só prestar um pouco de atenção e surgem acontecimentos pitorescos no trajeto para a escola, trabalho ou lazer, demonstrando que o equilíbrio já foi quebrado.
Há algum tempo, eu seguia por avenida de grande movimento ao cair da tarde, com fluxo intenso no sentido bairro quando um veículo, por distração de seu condutor, invadiu uns poucos centímetros a faixa paralela que o separava de outro que trafegava ao lado.
O fato foi corriqueiro, não trazendo qualquer perigo na forma como aconteceu, porque havia espaço suficientemente seguro entre os dois veículos, sem contar que no momento a velocidade estava bem abaixo do permitido. Tudo estaria encerrado se o passageiro do veículo supostamente ameaçado não reagisse tão agressivamente. Gritou, gesticulou e proferiu impropérios ao inocente infrator. Não satisfeito, colocou para fora meio corpanzil através da janela. Os veículos em movimento. Para surpresa de todos que assistiam àquele grotesco espetáculo, atirou sobre o veículo um sapato de salto alto e logo depois mais outro. Não sei de onde sacou aqueles sapatos. Poderia ser uma arma.
Percebi nos veículos mais próximos pessoas rindo, tal como satisfazendo a vontade secreta de agir da mesma maneira. O instinto animal engolindo o humano.
Centenas de outros casos semelhantes, piores ou não, poderiam ser lembrados pelos leitores ilustrando, mais ainda, em que ponto pode chegar essa loucura coletiva.
Não é necessário mergulhar nestes episódios, buscando respostas para descobrir se os ímpetos são semelhantes em outras regiões ou países, porque isto fica evidente através das notícias que saturam os meios de comunicação.
No popular, com certa redundância, é uma loucura doida, ou doideira louca: mistura de psicose com alienação, piração com delírio, doidice com insanidade, seja lá o que for.
Se esta loucura é um mal que assola toda a raça humana, saber sobre a origem destes distúrbios emocionais ou decifrar sua classificação não importa muito neste momento.
A verdadeira intenção é alertar que antes deste mal acometer, existem contaminações que o precedem. É bom perceber os sistemas que regem a vida moderna, seja o de governo, o tecnológico, o financeiro ou de comunicação entre tantos outros, impondo a todos, sem qualquer distinção, certa e propositada submissão que oprime, estressa e leva à loucura.
Estes sistemas utilizam a sutil estratégia de anular, antes de sua investida devoradora, o senso crítico do indivíduo.
É comprovado que sem senso crítico fica mais difícil perceber quanto agita o coração ouvir as baboseiras e notícias sobre os desmandos do governo. Sem senso crítico se aceita, sem reação, o atendimento impessoal do sistema de telefonia, que dribla o usuário com a voz virtual e metalizada ditando alternativas. Sem senso crítico, o cliente bancário (em especial o mais humilde e submisso), submete-se ao papel, humilhante e secundário, de reles empregado não remunerado dos bancos que, diariamente, se presta às funções e práticas que lhe roubam minutos ou horas preciosas da vida, ao mesmo tempo em que é assaltado vergonhosamente nos extratos bancários, por taxas de administração e juros abusivos. Sem senso crítico fica difícil desconfiar das facilidades para se embrenhar em algum sistema, para adquirir um celular, conseguir um cartão de crédito, crédito pessoal ou fazer crediário. Sem senso crítico se aceita, sem resistência, a idéia falsa disseminada pelo sistema de planos de saúde, de que todos nascem e são condenados perpetuamente para a doença. Enfim, sem senso crítico impera incapacidade de reação e de atitudes de oposição.
Da mesma forma, é bom notar como é quase impossível, depois do envolvimento nestes sistemas, livrar-se deles quando se tenta devolver um produto, renegociar uma dívida, interpretar extratos ambíguos ou provar que as ligações lançadas em conta não deveriam efetivamente estar ali.
Quanto mais cada um se envolver com estes sistemas, mais oprimido e estressado viverá, porque sua vida entrará em processo de repetição de atitudes, compromissos, gestos e ações.
Aquele que cai nas sutis armadilhas preparadas mergulhará em crise profunda de existência, ao perceber que gasta o fruto de seu trabalho para pagar seguros, planos de saúde e dívidas. Que a maior parte de seu tempo é utilizada para administrar o caos imposto por este tipo de vida irreal criada pelos sistemas.
Em cada iniciativa que tomar em busca da liberdade perdida, o indivíduo esbarrará não só nos limites normais impostos pelas leis, mas ficará estático diante das barreiras que são criadas pela burocracia de controle ou por outras geradas pela alta tecnologia.
Se é que existe uma explicação simples para estes surtos de loucuras urbanas, ela estará na opressão sufocante imposta por estas pequenas comodidades que deveriam servir para o bem-estar do ser humano.
Só existe uma maneira de diminuir os surtos de loucuras instantâneas: mesmo não entendendo de filosofia, mesmo que a capacidade de autonomia estiver em baixa, mesmo que as condições sejam adversas, cada um deve provocar uma parada brusca e obrigatória na correria do seu dia-a-dia. Colocar-se em atitude de profunda reflexão sobre a vida, a existência e os fatos que a regem, analisando tudo sob nova luz. E, com o que restou do senso crítico, buscar superação e liberdade destas realidades que não são saudáveis e verdadeiras.
Tudo o que é verdadeiramente bom coopera para o bem. Tudo aquilo que não se enquadrar neste princípio, cujo uso ou prática gerar angústias, deve ser abandonado com a mesma simplicidade da criança, que facilmente passa do choro ao riso. Xô! Sai pra lá, loucura doida.
J. Rubens Alves

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Acidente da Air France hoje 01/06





Em artigos anteriores falamos da profundidade e extensão das crises.
O acontecimento que hoje estampa as manchetes dos principais meios de comunicação, em relação ao desaparecimento da aeronave da Air France que voava do Brasil para a França, sem dúvida, é a mais fiel cópia do problema com grandes extensão e profundidade. Atinge o coração daqueles que, de alguma forma estão envolvidos sentimentalmente com aqueles passageiros e, também de todos que possuem a capacidade de se comover.
Há um fato, entretanto, que chamou a atenção, logo pela manhã, quando várias equipes de TV entrevistavam um jovem cujo irmão era um dos passageiros daquele vôo.
Em determinado momento, o jovem pediu licença para atender ao celular.
Mesmo tendo se afastado do assédio dos repórteres, para mais ao lado, teve sua privacidade invadida pelo bando de sedentos pelos furos e manchetes mórbidas.
Respeita-se, é evidente, o direito de informação da imprensa, mas deve antes haver respeito pelo direito de privacidade das pessoas, em especial neste caso de hoje.
É lamentável perceber que o respeito ao ser humano é deixado de lado quando o objetivo é atingir metas e conseguir a melhor posição no ranking profissional.
Se há pessoas que sofrem com seus problemas e crises, sem saber medir qual a verdadeira profundidade de caso, há outras que se utilizam dessas para explorar o que possa sair desses fossos provocados pelas circunstâncias da existência humana.
Lamentável a atitude desses profissionais da comunicação!
E que todos aqueles envolvidos afetivamente com os passageiros, adquiram as forças espirituais necessárias para superação de sua crise.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

PROFUNDIDADE DAS CRISES


A maioria das crises que acontecem, independentemente onde e como surgem, nascem de divergências de pensamentos, comportamentos, de valores e de interesses.
As crises são momentos e situações tensas, difíceis de contornar e resolver, que levam a desgastes extremos das partes envolvidas. Caem com raio sobre cabeças, grupos e nações.
Mesmo que seja meramente existencial, isto é, crise vivida por um indivíduo solitário, isolado com seus problemas íntimos, provoca grandiosos prejuízos e estragos em quem as experimenta.
Os nefastos prejuízos são sempre maiores quando uma crise envolve grupos, comunidades, governos e países. Se não controladas no início podem levar à degradação, ao caos e destruição integral os que nela forem envolvidos.
Nos tempos atuais, é possível perceber focos de divergências, bem próximo de cada um, que sempre levam a crises mais profundas.
A profundidade das crises sejam elas de qualquer origem, é diretamente proporcional à extensão das divergências e dos problemas que as geraram.
Quando, porém, se analisa sob uma ótica mais crítica e cuidadosa, qualquer crise diminui de dimensão porque, no fundo, percebe-se que elas surgiram de situações insignificantes ou de critérios errôneos de análise!
O Senhor, quando vivia a plenitude de sua vida pública, permeou entre crises criadas pelas novidades que apresentava ao mundo e delas se livrava com sabedoria, para o espanto de todos que presenciavam sua performance.
Em muitas ocasiões, como aquela em que ensinava a “oferecer a outra face”, o Senhor queria sugerir uma flexibilidade na análise de situações adversas, isto é, mais do que tomar uma atitude subserviente queria dizer “analise a situação de agressão sob outras luzes e formas” para que sejam antes entendidas e depois sanadas.
E o Senhor sempre está certo! Se cada um seguir este ensinamento vai perceber que a maioria dos problemas e crises tem um quilometro de extensão por um centímetro de profundidade!
O que pode destruir não é a extensão do ferimento, mas a sua profundidade!

J. Rubens Alves